Irina ficou imóvel na cozinha, com a chávena de chá já fria na mão, quando ouviu a voz animada de Liókha ao telefone. Ele falava como se estivesse apenas a recordar um acordo óbvio: Stas prometera-lhe quarenta mil para a entrada de um carro.
Ela desligou sem discutir.
Pouco depois, Stas entrou em casa, despreocupado, faminto e sorridente. O sorriso apagou-se quando Irina mencionou a chamada. Ele começou a justificar-se: amizade, urgência, homens não dizem que não uns aos outros.
— Prometeste-lhe o meu dinheiro? — perguntou ela calmamente. — O que eu juntava para os meus cursos?
Ele evitou o olhar, minimizou. Para ele, era “só dinheiro”.
Irina transferiu o valor. O alívio dele foi imediato. O gelo nos olhos dela passou despercebido.No dia seguinte, Stas andava satisfeito, herói às custas alheias.

Irina, calma e atenciosa, não discutia. À noite, quando ele se preparava para sair, ela informou, com a mesma serenidade, que tinha prometido ao irmão dele a sua coleção de vinis — um presente de aniversário.
Stas explodiu. Aquela coleção era a coisa mais preciosa que possuía. Tentou anular tudo, esconder os discos, mentir. Irina observava, paciente. A casa transformou-se num campo de batalha silencioso, feito de pequenos golpes precisos.
No dia do aniversário, Vitalik apareceu. Diante dele, Irina explicou com clareza cruel: apenas seguira a nova regra de família — ser generoso com o que é do outro.
Humilhado, Stas perdeu o controlo. Um a um, partiu os seus próprios discos diante deles, num gesto desesperado de destruição.
Irina não gritou. Apenas foi buscar o disco rígido com todas as memórias da vida deles — fotos, viagens, anos juntos — e destruiu-o calmamente com um cutelo.
— Agora é justo — disse.
Vitalik foi-se embora. Ficaram sozinhos, entre restos de vinil e silêncio.
A guerra terminara.
Não houve vencedores.







