As chaves ficaram presas na fechadura.Vera puxou a porta — não abriu. Quando cedeu, com um rangido estranho, ela empurrou com o ombro e ficou imóvel.A sala estava irreconhecível. Onde antes havia paredes claras e um painel moderno, agora dominava uma tinta cor de cereja escura.
O abajur de design fora substituído por um lustre antigo de cristal.Oleg estava à janela.
— Mamãe se mudou. Pra sempre — disse, com frieza. — A partir de agora, tudo você resolve com ela. Ela manda aqui.
— Este é o meu apartamento — respondeu Vera.
— Nosso. E agora dela também.Galina Pavlovna surgiu no corredor, altiva, em roupão azul-escuro, avaliando Vera como uma aluna.

— Renovei o interior. Estava frio demais — disse, antes de seguir para a cozinha.Na manhã seguinte, Vera encontrou suas maquetes espalhadas e amassadas no chão.
— Estou liberando espaço para um depósito — explicou a sogra. — Trabalhe na cozinha.
— Isso é o meu trabalho.
— Trabalho é o que dá dinheiro. O resto é brincadeira.Oleg apoiou a mãe sem hesitar. O escritório foi tomado, o trabalho de Vera sabotado, até que ela perdeu um grande projeto. Depois, descobriu que dinheiro havia sido retirado da conta conjunta.
— Mamãe agora controla o orçamento — disse Oleg. — É mais justo.Vera entendeu: aquilo não era temporário.
Certo dia, encontrou Galina Pavlovna mexendo em documentos do cofre.
— Quero proteger os interesses do meu filho — disse ela, sem constrangimento. — Ou você transfere o apartamento para o nome dele, ou eu destruo sua reputação.Vera gravou tudo.Consultou uma advogada, reuniu provas, testemunhas. Dois dias depois, flagrou a sogra tentando arrombar o cofre.
— Assine a doação ou acabo com sua carreira — ameaçou Galina Pavlovna.
— Já gravei tudo — respondeu Vera.Na manhã seguinte, chegou a notificação judicial: ordem de despejo e medida restritiva.
— Isso é ilegal! — gritou a sogra.
— Não é — respondeu a advogada. — A senhora tem 24 horas.

À noite, Oleg encontrou as malas na porta.
— Vocês vão embora — disse Vera, mostrando os documentos. — Está tudo registrado.
Quando os oficiais chegaram, ela apenas abriu caminho.Uma hora depois, o apartamento estava vazio.Vera caminhou pelos cômodos — agora, novamente seus. A parede cereja seria repintada. O escritório, recuperado.Sentou-se no sofá e respirou fundo.O silêncio não pesava.
Era dela.Sobre a mesa, uma chave de fenda. Vera riscou levemente a tinta da parede: por baixo, o branco reaparecia.
Ela sorriu.No fim, nada era tão profundo quanto parecia.







